Módulo 21 de 22
Psicoterapia: o que funciona e para quê
Cobrir o eixo de tratamento que não é medicação — qual abordagem serve a qual alvo, o que a evidência sustenta e onde ela é mais fraca do que parece.
Tema com evidência em movimento — guideline, risco ou achado recente. Por isso este módulo tem data de revisão e fontes à vista.
Revisado em
O achado mais importante deste módulo é metodológico. O tamanho de efeito da TCC para TDAH adulto muda drasticamente conforme o que está do outro lado da comparação. Em estudos que comparam com lista de espera, o efeito aparece em torno de 1,0. Comparando com tratamento usual, cai para cerca de 0,66. Comparando com um controle ativo — outra intervenção estruturada, com o mesmo tempo de contato e atenção —, cai para cerca de 0,32.
É o mesmo tratamento, medido três vezes. O que muda é o que se considera "nada".
A leitura honesta: parte do efeito vem da técnica específica e parte vem de encontrar alguém regularmente, com estrutura e expectativa de melhora. Isso não invalida a terapia — o benefício contra lista de espera é real e é o que a pessoa de fato experimenta. Mas significa que afirmações do tipo "TCC é superior" dependem de qual comparação está sendo feita, e essa informação quase nunca acompanha a afirmação.
Variação entre terapeutas. Em psicoterapia, quem aplica explica uma parte relevante do resultado — em alguns estudos, mais do que a abordagem escolhida. Consequência prática desconfortável: a escolha do profissional pode pesar tanto quanto a escolha do método.
O recorte da eutimia. Os ensaios de prevenção de recaída em bipolaridade recrutam pessoas estáveis. Generalizar o resultado para alguém em episódio agudo é extrapolação.
Segue em aberto
- Quanto do efeito vem da técnica e quanto do contato estruturado
- Se intervenções psicológicas ajudam durante episódio agudo
- Como identificar antecipadamente quem responde a qual abordagem
O que fazer
Ao ler qualquer afirmação sobre eficácia de terapia, procure comparado com o quê. Lista de espera, tratamento usual e controle ativo produzem números tão diferentes que a frase sem essa informação não diz quase nada. É a mesma pergunta que você já aprendeu a fazer sobre medicação.
Curiosidade
O problema do controle ativo é o equivalente psicológico do placebo — e é mais difícil de resolver. Em estudo de medicamento dá para fabricar uma pílula idêntica sem princípio ativo. Em psicoterapia, o que seria uma "terapia falsa" com a mesma duração, o mesmo terapeuta atencioso e a mesma expectativa de melhora, mas sem o ingrediente ativo? Ninguém sabe montar isso direito, e é por isso que a área convive com uma incerteza que a farmacologia, nesse ponto específico, não tem.
Tópicos deste nível · 4
- O problema do grupo-controle: o mesmo tratamento com três tamanhos de efeito
- Variação entre terapeutas e o que ela implica
- "Funciona em eutimia" — o recorte que quase nunca é dito
- Acesso: a intervenção mais estudada é a menos disponível
O erro comum
Tratar terapia e medicação como alternativas concorrentes. As diretrizes as posicionam como camadas complementares — e pedir "terapia" sem especificar abordagem e alvo costuma entregar acolhimento sem método.
Fontes consultadas
- Solanto et al. — The efficacy of cognitive-behavioral therapy for adults with ADHD (World Psychiatry, 2025)
- A meta-analysis of the intervention effect of cognitive behavioral therapy on adult ADHD
- Short-term and long-term effect of non-pharmacotherapy for adults with ADHD — systematic review and network meta-analysis
- Psychological interventions for adults with bipolar disorder — systematic review and meta-analysis (Br J Psychiatry)
- Group CBT and group psychoeducation for treating symptoms and preventing relapse in bipolar disorder — meta-analysis
Diretrizes mudam. Se a data de revisão acima estiver velha, confira na fonte antes de levar isso para uma conversa clínica.